segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Fragmentos de 2011


Eu não tenho palavras para expressar de forma precisa o significado do ano de 2011 para mim.
Posso afirmar que o início do processo de transgressão e busca do Eu surgiu, anteriormente, na expedição ao Pico da Neblina, isso em 2009. À partir daí se deu o processo de renascimento, aceitação da perda da minha mãe, percepção e valorização das relações impalpáveis.

Por fim, alcancei o tempo no ano de 2011, ano da continuidade.

A reação é, inclusive, carnal a cada mudança, seja ela física, mental ou espiritual. 

O improvável se dá de forma embaraçosa. As palavras fogem e o riso ocupa. 
Sereno ele disse: 
- Volte a escrever. Você tem muita imaginação.

A Fernanda proporcionou o encontro. Nesse momento, descobrimos muitas formas de comunicação entre nós ''Eu iN Fernanda''. 
Em abril de 2011 eu entrei em um livro de poesias. Confesso que me senti privilegiada e hostil ao mesmo tempo.  
A obra de Martha Barros ilustra não só os livros mas a casa de seus pais. Projetei-me para dentro. 
Isso se deu graças ao encontro com o poeta, que vocês já devem imaginar, Manoel de Barros. Esse encontro, para mim, representou a transformação de forma plena. 
Eu ali, sentada ao lado do ilustre poeta.
Contemplação da maturidade e invasão de pensamentos.
Por dentro, meu coração acelerado se acalmou diante do silêncio e do tempo. 
Uma viagem sem relatos possíveis dentro do meu vago domínio dos vocábulos.
Ao observar casinhas de beija flores na varanda, encontramos o que pode ser definido como diálogo.
Surgiu a vontade de contar sobre o roubo dos meus diários. Falei da minha frustração.
- Eu comecei a escrever aos nove anos de idade. Com tal perda eu não tenho ânimo para escrever. Não escrevo mais nada - Senti um certo frio na barriga e a sensação de voltar no tempo naquele instante.
- Volte a escrever - Disse ele - Nem que seja sobre o nada. Quem escreve e deixa de escrever, fica vazio. Eu não sirvo para nada, só sei escrever.
Saí de lá depois de uma longa conversa. Olhamos fotografias e conversamos sobre qualquer coisa. 
As palavras desorganizadas caiam como chuva na minha cabeça. Eu precisava de uma caderneta para anotar todos as ideias que me rodeavam.
Na lembrança tenho a imagem do momento da despedida. Dona Stella acenando no portão até o carro virar a esquina de uma rua qualquer em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. 

Para ilustrar minha poesia sem rima e sem acordos ortográficos eu fui buscar outro mestre. Até então, ele só existia na minha imaginação e nas sessões com a Helena.
Tive o imenso privilégio de saborear conversas e aulas com o grande mestre da fotografia, Evandro Teixeira. 
Foi ele quem me ajudou a encontrar formas para ilustrar os pensamentos vagos. Me orientou no encontro do meu próprio olhar. Dei início ao processo de retratar com leveza a essência do pensamento e conciliar com o que já existia na poesia e no silêncio. 
Entre muitas risadas e conversas, outro sonho realizado, a fotografia.

E o Jorge Luís Borges? Ele é e será eterno. Ele me leva para a Islândia, para o inesperado, em busca das sagas, me fala dos deuses pagãos, pescadores e pastores. Me faz querer partir na busca do espírito épico. Me faz revelar o sentimental e o sensível.
Nessa mistura de sabores e desejos inesperados nasceu a Tiêta, uma kombi, que vai nos levar (Tainá, Thomas, Jean-Marie e Eu) através desse Brasil encantado de seres além do imaginário.

Agradeço de coração à vocês, pessoas que conheci, pessoas que já conhecia e que participaram de forma inesperada dessa construção.

Dezembro é o mês escolhido para fragmentar o tempo em Ano para que possamos recomeçar e, por quê não de outra forma?

Desejo que o ano de 2012 seja ainda mais inspirador. 

Boas Festas e acima de tudo: PAZ

Sol e outros seres além do imaginário.




terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Toto: Club Piou Piou




Vagueando sem rumo na memória e no tempo...

Vue de la chambre - Valmorel
Meu passado é reconstituído através da memória. Estou sempre recorrendo a ela. Ando com meu diário, pego o lápis, as memórias se antecedem e com elas a vontade de escrever. Não é tão raro, pulo da cama às quatro da manhã, escrevo algumas linhas, para não esquecer, e volto à dormir. Como já disse anteriormente. Eu me considero um ser ''macunaíma'', nasci com dez anos de atraso. Esse tempo de isolamento do contato com o mundo lá pelas bandas da Província de Itanarã (Paraguai) e Colônia Bom Dia (Brasil) não foi tempo perdido. Lá não é o fim do mundo ainda, mas é perto. Aprendi e vi coisas que me caracterizam como ser.
Eu chamo esse tempo de ''tempo de gestação''. Aos dez anos eu nasci, para esse mundo. Demorei para falar, aprendi a escrever e ler com 3 anos (assim contam meus pais e tias). Para falar era mais difícil, eu só ouvia o guarany do Paraguai e meus pais não eram muito de causos quando estavam à sós. Tinha o Baiano, esse era o saci pererê para mim. Meu irmão de coração, apesar dele ter duas vezes a minha idade. Ele vivia mentindo para minha mãe. Ela sabia.  Eu não sei a origem do Baiano e nem quem eram os pais dele. Só sei que ele me dizia. ''Você é meio estranha. Parece que vive viajando. Acho que um dia você vai morar ''nos estrangeiros'' e vai conhecer a neve''. Neve? Nem sei o que que é isso!
De vez em quando o Baiano apanhava muito dos meus primos mais velhos, donos da fazenda onde morávamos. Eu chorava escondida atrás da casa e quando voltava percebia que minha também havia chorado.
Nesse tempo invertido, hoje, amanheci com vontade de escrever.

Sur la route Normandie / Alpes
Hoje lembrei da viagem pelo branco, como previa o Baiano, da sensação de estar num mundo sem cor, do drama, da aventura. Considero valioso, rico, o lugar da infância. Eu percebi, naquele momento, o quanto cada lugar tem seu fascínio e como as pessoas daquele lugar expressam as emoções e sensibilidades de forma incompreensível ao insensíveis. As pessoas são seres mágicos, todos animais são mágicos. Podemos harmonizar sim.
Esses dias uma menina veio me dizer: ''Você é casada com um francês? Os franceses não conseguem expressar sentimentos''. Na hora eu não respondi, prefiro pensar primeiro. mas agora eu posso dar a resposta. Na verdade, eu penso que é ela quem não consegue captar a linguagem de transferencia da sensibilidade enviada por aquele determinado povo. Ela é que não está sendo sensível. Mas isso já é outra coisa. Agora quero lembrar do branco.
Nessas andanças pelo mundo eu fui parar em Valmorel, Haute-Savoie na França. 
Eu facilmente me deixo conduzir, ainda mais nessas ocasiões, guiada por pessoas locais. Antes de chegar lá, pouco sabia sobre o lugar. Confiando nos meus guias e no fascínio pela descoberta. Como eu mesma já disse em outras ocasiões, gosto de ler sobre o lugar somente depois que o visito, assim como um dia o cara que escreveu o guia prático descobriu tudo, eu também gosto de descobrir com o meu próprio olhar e depois saber a opinião do outro. 
Dia 2 de janeiro de 2010, 4 horas da manhã, saímos abaixo de neve da Normandia em direção aos Alpes. A viagem foi longa e tensa. A neve tomou conta da França formando um véu branco, tudo ficou sem cor. Um lugar velho encoberto com os cabelos brancos, dentro de um túmulo frio. A velocidade máxima do carro era de 40km/h. A atenção redobrada. Viajantes que iam e se seguiam lentamente no segundo dia de um ano novo. O percurso demorou o dia inteiro nesse ritmo lento e propício para a contemplação. 
Valmorel 
No início da noite chegamos em Valmorel, já estava escuro, estrada estreita e cheia de curvas. Lá encontramos uma pequena estação com chalés e residências para alugar por temporada, encobertos pela neve. Não se via um ser vivo perambulando pelas ruas. 
Assim que paramos, as crianças, Tainá, Thomas e Bruna desceram rapidamente do carro. 
Não posso descrever. A alegria é indescritível. Mas posso tentar: saltaram na neve, descalças, riam e choravam, nadavam naquela paisagem insólita.
Eu olhei para elas, enchi meus olhos de lágrimas de alegria e num frio de (-11ºC) deixei que curtissem até onde poderiam, quando já estavam roxas de frio e molhadas pela neve, quiseram entrar. Crianças.
Entramos no Chalé que abriga várias residências. O nosso era todo decorado com coração. Não dava nem para acreditar. Acendemos a lareira e curtimos aquele momento melancólico e mágico juntos.
Pela manhã após o café-da-manhã cada um traçou o seu destino.
O Thomas foi para o Club Piou-Piou, escolinha para os pequeninos aprenderem a esquiar.
A Anne-Marie, ''ma belle-maman'', depois de deixar Thomas na escolinha de esqui, seguia seu caminho, ela não curte muito esquiar, prefere caminhar na neve pelas trilhas.
Jean-Philippe, Gaëlle, e JM desapareceram. Estavam na ânsia para esquiar depois de muito tempo. 
Thomas, Tainá e Bruna (cousine de Buritis - RO)
Tainá e Bruna também foram para a escolinha de esqui categoria ''Ourson'', adequado para a idade delas.
Gregoire (chegou depois, não lembro quando exatamente, mas chegou).
E eu?
Bom, eu tive que me virar. Lembrando que esquiar, para mim, foi um tanto traumático. Essa era a terceira vez que eu embarcava nessa de ir para a Montanha no inverno para esquiar (sou macaca de montanhismo, no verão e caminhando). A primeira vez que experimentei esquiar foi na estação de La Norme, janeiro de 2001. A segunda vez foi na Serre Chevalier em março 2001. Naquela época eu morava em Paris. Lembro que voltava frustrada e cheia de hematomas, cheguei a chorar nas inúmeras tentativas. Na época eu falava que não tinha tido sorte com o grupo e nem com o professor. Fiquei tão decepcionada que desisti de tentar e não ultrapassei o nível básico. Mas na verdade era eu quem não estava preparada. Como já disse sou ''macunaíma'', dez anos de atraso.
Voltei para esquiar!!!
4 janvier 2010 (4 ans)
Foi nessa viagem de muitas sensações e re-descoberta que eu pude mudar minha concepção e perder o medo de esquiar.  Eu resolvi tentar outra vez. Fui na escola de esqui e me aconselharam uma professora, dessa vez particular. Ela tem a minha idade, se chama Ana, logo senti muita confiança nela e uma certa  afinidade. Conversávamos sobre outras coisas e o esqui fluiu naturalmente, quando me dei conta, eu já estava no alto de uma montanha descendo, fluindo numa liberdade sensacionaaaaaal.
No último dia a Ana me levou num lugar especial chamado ''col de la Madeleine'', encontramos um amigo dela, cabelo longo, nativo, professor das antigas. Paramos no colo da montanha para observar o pôr-do-sol. De repente o inesperado. O sol se alinhou com o nosso corpo e projetava uma sombra que batia na neblina que estava há alguns metros de distância. O sol, eu e a sombra na neblina, alinhados e assim acontecia com os outros. Viramos para trás, para a neblina e nela vimos o arco-íris contornando a sombra de cada um. Cada um via o seu próprio arco-íris, mas não podia ver o arco-íris em volta da sombra do outro.

Só o silêncio pode expressar o que senti naquele momento...

Durou alguns longos instantes. Foi se diluindo de acordo com que o sol ia se pondo. 
Foi a primeira vez que vi o pôr-do-sol virada de costas para ele. 
Só de lembrar me dá um arrepio e uma vontade de chorar.
Agora sei a cor da minha aura... Ela é colorida!
(...)
(...)
A neblina por sí só, para mim, já é um fenômeno, depois da expedição Pico da Neblina (2009) minha relação com a neblina ficou mais forte. Tenho lembranças da serra, subindo e descendo lá na Fazenda Nhu Guaçú, mudamos para lá depois de uma fuga pela madrugada do Paraguay (era viver ou morrer), pela manhã se formavam nas descidas ciclos de neblina, que minha mãe chamava de serração (que nome mais lindo).

Estou aqui escrevendo e viajando para esses lugares do passado. Como é bom resgatar a memória. Ela volta com mais intensidade. Eu demorei dois anos para poder escrever o que realmente representou para mim esse acontecimento do ''col de la Madeleine''. Hoje tenho certeza que tirei muitos projetos e ideias da incubadora graças a essa lembrança. 
Tenho outras, tenho uma caixinha guardada dentro da minha cabeça. As vezes elas querem sair. Meus diários foram roubados, considero-os perdidos. Se alguém os achar, que faça bom proveito.
Queria poder contar tudo isso para o Baiano. Esses dias meu pai me ligou dizendo que ele morreu, AVC. Ele estava morando em Anaurilândia-MS, deixou 6 filhos,  meu pai depois que descobriu o paradeiro dele, ia visita-lo. Ele ganhava a vida como artesão, utilizava produtos reciclados. Fez uma churrasqueira com o disco de um arado e deu de presente para meu pai. 
Saudades do Baiano. Ele foi meu melhor amigo na infância do mundo perdido. Apesar dele ter sido pego para ser criado pelos meus tios, os donos da fazenda, foram meus pais que deram afeto, talvez, os únicos que tenham feito isso durante sua infância.
L'Altispace - Valmorel

Fin du voyage. Jardin des plantes - Paris


PS: Falei com meu pai e ele vai me dar a única foto do Baiano criança. Nessa foto em PB o Baiano está montado em um cavalo preto e inclinando-o para trás, em frente da casa onde moravámos, lá no Paraguai. Não temos muitas fotos de infância, mas dessa lembro-me muito bem.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Silenciosamente - fotos do varal no Variete Cultural




Variete Cultural (Centro de Cultura Laurinda Santos Lobo)
Silenciosamente
Solange Bouffay
Fotografia Digital em papel algodão textured 
2010/2011


domingo, 27 de novembro de 2011

Intuição


Foto: Sol
Foto: Sol
Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome, cores de Almodovar, cores de Frida Kahlo, cores...
Passeio pelo escuro... (Adriana Calcanhoto)

Tiêta, 
Uma ligação que irá apimentar o fascínio pela descoberta.

Dia 26 de Novembro. Uma data para ser comemorada!
Ontem fez 12 anos que conheci o JM. Que coincidência?!
(Pensei e acabei lembrado desse detalhe agora, pois ontem na euforia dos acontecimentos passou despercebido).
Nessas minhas variações pelo mundo...
Deixo que a vida siga o rumo que quer seguir.
Sou de nadar a favor da correnteza e deixar que o rio me guie através da sabedoria e leveza.

Foto: Sol

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Dia de chuva, como é bom



Uma chuvinha, um cantinho bem quentinho para se aninhar e passar o dia.
Ela saiu para passear...
Aiiii que preguiça boa!
Eu acho que dia de chuva é dia perdido.
As coisas perdidas são especiais: o rio perdido, o tempo perdido, o lugar perdido...
Um livro para relaxar... parar e ouvir as ideias, colocar coisas no papel e até criar um desenho animado com o meu filho.
De vez em quando um chá de hortelã, bolo de banana, um chameguinho e preguiça da boa.
Como já disse Dorival Caymmi ''Preguiça, e se for com bicho de pé, melhor ainda!''.
O gatinho pede atenção e se estica todo. Mia. Volta à dormir na poltrona da varanda. 
No final do dia, um filminho para animar. Ela volta para casa.
Um carinho e um cafuné.
BOA NOITE!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Matéria Imaginária


Matéria Imaginária
Solange Bouffay
Fotografia Digital 90 x 60 cm
2010


Evento: Variete Cultural 
Exposição na Casa de Cultura Laurinda Santos Lobo - Santa Teresa.


Minha experiência com o improviso foi um desastre interior.
Não costumo ser uma pessoa relapsa, mas dessa vez me deixei levar pelo tempo, pelo acaso e foi desastroso.
Na cabeça projetei um plano e (des)construir foi como despir-me diante do fracasso. Senti morrer por dentro, uma correnteza me levou, fui perdendo as forças, aos poucos, sem margem à vista, fiquei sem voz e uma cegueira tomou conta de mim. Não sentia mais vontade de nadar.
Diga-se de passagem, como sou um ser de sensações e experimentações me deixei, em determinado momento, levar pelo rio do acaso, pelo desamparo de ficar só.  Não é tão desastroso assim, afinal.
Um grito veio lá de dentro. 
''Separe o binômio''.
- Nãoooooooo, não posso!
Na teoria os duplos, os geminados, os siameses não devem se separar. Um depende do outro, entretanto, são diferentes entre si. As matérias imaginárias quando separadas perdem a força e podem até morrer. 
Juntas ganham mais força. 

Na confusão mental tentei ficar invisível, me camuflei de planta, virei espelho e chorei diante da perda interior.
Me falaram em milagre?
A matéria também chorou. Acredite se quiser.
Agora rio.
A sensibilidade, as vezes, nos leva por caminhos inexistentes e problemas imaginários.
São só sensações de meros pensamentos vagos que vem e que vão.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Para onde você está olhando hoje?

Foto: Sol



Conversa ao pé do ouvido

 


Feche os olhos. 
Imagens, sons e cheiros,
Lembre daquela conversa ao pé do ouvido.
Sente ao lado direito do Poeta, 
A sala, a toca. 
Ele fala passarinhos, o silêncio, 
O Índio Guató em Paris e o olhar primitivo,
Fala de mansinho.
Fique sem saber o que dizer, 
Nessas horas para quê falar?
Busque os pensamentos vagos... que fujam todos... melhor assim.
Silêncio!
Emocione-se, chore por dentro para acalantar a alma.
Silêncio!
Logo depois de ouvir o silêncio,
Fale da infância,
Ria,
As casinhas na varanda, duas casinhas de beija-flor.
Depois de muita conversa sobre o nada, despeça-se do Poeta encantador, cujo nome: joão de barro.
Conversa em forma de poesia, 
E poesia tem forma?
Guarde na lembrança: Dona Stella acenando no portão.



Agradeço as oportunidades que a vida proporciona, de coração.

Retrato aqui, o encantamento pelo silêncio!

Fotos: Sol

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Tempestades Internas


Foto: Sol


Onde estou agora? 
A solidão é necessária para descobrir o verdadeiro valor de estar com o outro - digo isso só por mim. Valorizo as relações com homens, animais, plantas, cores, universo, cosmo, enfim, com ''n''coisas. 
Nestes últimos dias tenho me perguntado - como venho me relacionando com cada um? Se reflito é porque dou importância. Só me relaciono com paixão. Vivo as paixões intensamente. Posso ''ser e sentir'' o que eu quiser ''ser e sentir''. Sempre acreditei nisso!
Viver a paixão - quando digo isso, penso em todos os âmbitos que conheço da palavra.
Prezo os sentimentos físicos ou não. Os sentimentos leves são crianças nascendo dentro de mim. O físico não significa quase nada; ao mesmo tempo que podemos estar presentes, podemos não estar verdadeiramente. Não estou dizendo que não aprecio o físico. Conviver diariamente para mim é  complicado, pelo menos nesse momento. Conviver é rotina. Tenho dificuldade com rotina. Mas valorizo todas as formas de relações.
Até onde estou sendo eu mesma? 
A partir do momento que aceito minha própria confusão, meus sentimentos, meu temperamento e as negações, creio estar me abrindo para mim mesma. Fomos condicionados a só querer fazer o bem e dizer sim. Eu, porém, não vejo o bem como verdadeiro e muito menos o sim. Vejo como uma imposição, da qual estamos começando a ter consciência, coisas que foram impostas pelas tradições. Pensar sobre o mal, seja como for, pode ser considerado como pecado. Isso para mim não tem valor. Desconsidero qualquer afirmação que só favorece um lado. 
Posso estar cega, mas me parece que tudo tem dois lados ou mais: o bem e o mal, o branco e o preto, o Ocidental e o Oriental, o homem e a mulher, o esquerdo e o direito, a noite e o dia, e por aí vai. Vou refletir mais sobre o ''único'', outra hora. Tenho a impressão de que o ''único'' não existe, é o que me pareceu agora.
Eu estive na linha imaginária do Equador. É muito bom ter ''insight'', nesse dia eu me coloquei entre dois pólos: o pólo norte e o pólo sul. Tudo não passa de estar visualizando sua própria imaginação. Nesse dia, vi os dois lados da vida e refleti sobre tudo aquilo que me ensinaram. Fui até minha infância, antes dela e voltei. O que eu pensava até então não passava de uma mentira. Na verdade eu sempre soube disso, mas nesse dia eu tive certeza. Foi um sentimento que veio de dentro de mim e me senti totalmente livre pela primeira vez.
Quando cheguei até os Yanomamis, percebi que o Brasil não existe, não dá mesma forma que eu acreditava que existisse. Outra coisa: contar a idade e dar coerência para as coisas é só um conceito do qual fomos obrigados a aceitar. Somos seres padronizados. É uma invenção do sistema. Somos programados e manipulados diariamente. 
Inclusive, os Yanomamis morrem de rir quando são obrigados a pronunciar o próprio nome. Falo do nome oficial, de registro, aquele que está na carteira de identidade brasileira. É uma piada! Alguns ainda não tem nome na tribo. Eles me contaram que o nome não é escolhido por eles, ou pelos pais e sim pela natureza, ou seja, num determinado momento o nome aparecerá. 
Meu nome foi escolhido pela natureza, como vestia preto e minha amiga vermelho nos deram o nome de horetoyoma e huryhima. São pássaros da mesma espécie, cada um tem uma cor e uma personalidade. São pássaros que não voam alto, mas são capazes de saltitar durante muito tempo entre os arbustos. 
Onde estou agora?
Agora eu acabei de voltar. Estou aqui escrevendo essa lembrança que me veio à tona. Estou sentindo saudade das montanhas, de estar com minhas irmãs, ver meus primos queridos, tomar chimarrão e rir muito. Estou sentindo vontade de ouvir algumas vozes, de abraçar minha vó Maria Flores. 
Eu só tenho certeza de uma coisa. Daqui a pouco vou poder abraçar meus filhos e dizer o quanto os amo e que sou muito feliz em viver e conhecer pessoas maravilhosas nessa minha passagem por esse mundo. Tive que descobrir e lutar para abraçar a liberdade.

Foto: Sol

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Mulher etc. e tal

Foto: Sol
Hoje foi um dia daqueles. Meu corpo amanheceu dolorido. Meu humor totalmente transformado. Nem eu queria estar comigo mesma. Quando estou perto de pessoas estranhas, consigo disfarçar, porém, perto de queridos, não dá. É sutil, mas quem me conhece logo percebe a mudança. 
Tem cor, é vermelha.
Se eu fosse me definir como uma fruta, não hesitaria, diria logo, sou um limão. Mas como não sou fruta, digo que sou alguém  que troca de pele, de ''allure''.
Me considero uma pessoa calma, tolerante e segura. Mas durante quatro dias no mês posso jogar tudo para o alto. Um chá seria uma boa, ao invés disso, prefiro a paura, a tempestade. Quando passa, vem o sentimento de algo novo, mudanças internas, a força incontrolável aos poucos vai sendo acalmada e isso tudo, dentro de mim.
Não chego a me desesperar, aprendi a reconhecer e conviver da melhor forma, já que é inevitável dentro da natureza feminina. Sou contra medidas de prevenção. Prefiro ser bicho.
Gosto de fugir. Desde pequena tenho o hábito de me isolar. Nessas horas ajuda. Meu corpo pede e minha mente também. Ficar sozinha, em silêncio, não pensar, não responder. Para que isso aconteça eu corro de todos e de tudo. Meu refúgio pode ser meu quarto ou vou buscar refúgio longe de casa. Deito, olho para o céu e as vezes durmo no pé da montanha. Ultimamente estou percebendo uma vontade de fotografar, sem interferência de ninguém. Alguns seres sempre aparecem. Uma vez uma lagartixa me olhou com estranheza e continuou seu curso normal. Assim vou convivendo com a TPM, que para mim, nada mais é que, a mudança de pele para a cobra.

Foto: Sol

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Espelho, espelho meu...

Foto: Sol
Hoje eu me olhei no espelho e me vi. Ri tanto que quase chorei. Quis sair correndo e enfiar a cabeça dentro de um lago e gritar de pavor para ninguém ouvir tamanha frustração comigo mesma. Como podemos ser um dia linda e no outro feia que dói? Fiquei com vontade de quebrar o espelho, mas lembrei que isso já foi feito. Estou repetindo? O jeito foi escovar os dentes, tomar café e voltar a estudar. 
É o que vem de dentro. Sou ser bicho. As vezes tenho vontade de quebrar tudo. Eu nunca fui muito de telefone. Antigamente descontava neles. Já quebrei muito telefone nessa vida. 
Quando eu era pequena andava a cavalo ou me escondia atrás da porta. Minha mãe conta que já passei o dia inteiro atrás da porta sem comer e sem fazer barulho. Eles chegaram à pensar que eu havia desaparecido.
Agora a fúria passa de outro jeito. Desde que morei em Bonito minha relação com o meu eu mudou e como.
Hoje em dia tenho a capacidade de fazer tudo internamente, corro, escalo, vou para a cachoeira ou simplesmente penso em coisas que me levam para esses lugares. Deixo o tempo agir e começo a voltar ao eixo. 


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Poesia visual

Não me canso de admirar...

Fotos: Sol


A mesa. Ou seria? A árvore

Caminhando pelo Rio vi essa mesa de madeira. Parei. Olhei. 
Tentei imaginar por onde essa mesa teria passado. A transformação que ela teria sofrido. Que árvore ela já fora um dia? De que floresta ela viera? Será que ainda existe essa floresta?
Me fez muito refletir a respeito do que somos e de como estamos em constante transformação, natural ou não. Transformação, eu tenho um certo gosto por essa palavra, gosto pela sua ambigüidade.
Vivemos essa transformação diariamente, positiva ou negativa. Temos que buscar o equilibrio, transformação sem agressão, sem impacto. Pensando nisso:
Domingo, lindo dia de sol. Peguei minha ''magrela'', coloquei uma roupa verde, meu filho Thomas foi solidário e colocou até meias verdes. Parecendo os ''tartarugas ninjas, fomos encontrar, amigos verdes, familiares verdes e a marcha verde contra o Novo Código Florestal, em Copacabana.
Não sei dizer quantas pessoas haviam, gostaria de ter visto mais. Mas fiquei feliz pois quem esteve lá, esteve porque realmente acredita, foi voluntariamente. Isso é importante! Se propor, não desistir, acreditar. 
Quantos não sabem o por quê do voto e nem  mesmo para quem estão votando. Sobre preservação? menos ainda.
O que estamos vivendo não é só uma questão política é a luta pela própria vida. A continuidade. O ciclo da vida no planeta precisa da nossa ajuda, somos parte disso tudo. 
Se tenho uma religião essa é a minha. Respeito com a natureza. Temos um templo a céu aberto, com o frescor do vento, a floresta, as montanhas, os vales, o cerrado, o silêncio, o barulho dos bichos, enfim, poderia citar milhões de exemplos. 
O ser egoísta entrou no ''ensaio sobre a cegueira''. Temos que lutar para que a floresta continue vivendo.
Plante o dobro, antes mesmo de pensar em desmatar daqui para frente. 
E imaginar esses pobres seres que não pensam em nada disso. E pior, imaginar aqueles que pensam e ignoram. 
Num pensamento sem fundamento eu sonho em ver o homem sem o sentimento de ''poder'' no coração. Como numa saga. Tornar-se livre, desconhecer o poder. 
Ainda temos dificuldade em lutar pelos direitos em comum. Deixemos de lado as  pretensões, lutemos pela igualdade do ser.
Estamos presos por uma minoria que dominam tudo e todos por ter em mãos o ''poder''? 
Fazendo uso dessa palavra descaradamente. O poder da igreja. O poder legislativo. O poder executivo... 
E os argumentos capitalistas de que temos que trabalhar e que faz parte da natureza do homem, o trabalho. O trabalho de exploração? É esse que temos como proposta.
Não existe valorização do ser. O sábio Raul Seixas profetizou: ''O dia em que a terra parou''. Temos que parar tudo.
Tem gente que pensa em morrer, desistir, fugir. Sinceramente, eu quero viver o máximo que puder para aqui lutar. 
Daqui alguns anos, esse pobre corpo que aqui me serve poderá descansar sabendo que reivindicou.

Foto: Sol

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Dormir não é perder tempo. É se perder no tempo.

Essa noite sonhei que um visionário criou um novo atrativo turístico no Rio de Janeiro. Entrei na fila, fiquei por alguns instante observando o comportamento das pessoas e não entendi o que acontecia com elas. A fila avançava rápido e logo chegou a minha vez. Subi os degraus, na verdade os degraus é que subiam comigo. Cheguei numa plataforma a céu aberto, em cima de um brejal com vegetação subaquática bastante variada. Assim que o degrau chegou tive que saltar depressa pois como uma escada rolando os degraus não pararam para eu descer. Desci, entrei em um caixão de vidro transparente, parecido com um aquário. Essa caixa começou a flutuar comigo. No início me deu um frio na barriga, mas depois comecei a relaxar e a curtir intensamente aqueles movimentos. Senti meu corpo levitando,  era o meu corpo que controlava os movimentos da caixa transparente. Dei alguns giros leves, fiquei de cabeça para baixo e avistei um portal que durou alguns segundos. Não consigo lembrar o que visualizei dentro do portal. A caixa flutuava em cima de uma nascente só parei quando me desconcentrei e caí dentro do riacho e a vegetação tomou conta da caixa. De lá subi numa Gôndola de Veneza e encontrei com o Thomas e o Cainã brincando em cima de um tronco bem grosso na beira de um rio. Eles  brincavam e riam. Acenaram quando me distanciei e continuaram o que estavam fazendo.
Saí do rio e encontrei a Jéssica que acenou e me ajudou a subir em um tronco fino e muito comprido, cheio de galhos e folhas, uma ponte que me levou para outro lugar. Fumei um cigarrinho de palha que alguém deixou aceso em cima de uma árvore baixa e com o tronco bem grosso, ao lado de uma cerca de arame farpado. Avistei alguém, um homem se aproximando, era o meu pai à cavalo. Chegou me olhou e disse com voz mansa: "Desce daí que a Tainá foi picada por uma cobra, não é para você ficar assustada, não é nada grave, a cobra foi encontrada''. Cheguei ao hospital e vi dois furinhos na perna da Tainá foi quando ela me acordou dizendo: ''Mãe, mãe, tchau, estou indo para a escola''. 


quinta-feira, 16 de junho de 2011

A lua menstruou. Eu também

Acordei cedo, atrasada, mal escovei os dentes e sai correndo em direção à Tijuca.
Prova de Estudos em Comunicação.
Durante o caminho fui ouvindo a 94.1, Roquette Pinto FM, deu no noticiário: ''Lua Cheia Eclipsada''. Eu já sabia mas foi bom relembrar para planejar onde seria melhor para observar.
Pensei no Pão-de-Açúcar, subir pelo Costão até a Pedra Filosofal. Outra opção seria aceitar o convite do meu primo Thiago que chamou uma galera para subir o Costão de Itacoatiara. Porém o tempo continuava nublado aqui no Rio, achei melhor não arriscar  lugares altos.
Chegou a tarde eu percebi que estava estranha, mais inchada e indisposta. Também estava menstruada, ou melhor dizendo eclipsada?
Acabei optando pela mureta da Urca com a Tainá e o Thomas. O tempo permaneceu coberto. Não vimos o eclipse.
Takumã Kuikuro, um amigo do alto Xingu, me emprestou um filme de sua direção e de Maricá Kuikuro, justamente sobre o fenômeno da lua Menstruada. O documentário faz parte do projeto Video nas Aldeias. ''O dia em que a lua menstruou, Nguné Elü. Tudo muda. Os animais se transformam. O sangue pinga do céu como chuva. O som das flautas sagradas atravessa a escuridão. Não há mais tempo a perder. É preciso cantar e dançar. É preciso acordar o mundo novamente. Os realizadores kuikuro contam o que aconteceu nesse dia, o dia em que a lua menstruou.''
http://lugardoreal.com/video/o-dia-em-que-a-lua-menstruou-ngune-elu/
O fato é que voltei para casa e o tempo se abriu, a lua apareceu linda e cheia no céu.
Pensei comigo, vou dançar, no Circo Voador. Os Cordestinos, convidam Gilberto Gil, Carlos Malta, Hamilton de Holanda, Sérgio Chiavazzoli, e Yamandu Costa para tocar clássicos de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e suas próprias composições.
Mas nada deu certo. 
Meia noite eu ainda estava em casa, sem tomar banho e meus planos indo por água abaixo. Eu não poderia deixar as crianças sozinhas e ir para o show. Sinceramente, isso nunca aconteceu. Sempre consegui combinar e conciliar meus programas com os do JM. 
Me bateu uma tristeza e percebi que seria inútil tentar ir contra. Alguma coisa fez com que eu ficasse em casa. Talvez o JM possuído por um espírito do tempo para que eu não fosse atropelada na rua? Vai saber. Só sei que minha vontade foi completamente ignorada e nesse momento me bateu uma tristeza e comecei a chorar e a chorar. Parecia criança abandonada. Chorei a noite inteira que molhei o travesseiro, hoje meus olhos estão ardentes e inchados. 
Estou escrevendo sem saber direito o que aconteceu. Assisti novamente o video sobre o eclipse. O banho? Isso é segredo...
Essa coisa de eclipsar para mim é terrível. Eu fico mal-humorada, indisposta, cheia de olheiras, querendo que o mundo se acabe.