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| Vue de la chambre - Valmorel |
Meu passado é reconstituído através da memória. Estou sempre recorrendo a ela. Ando com meu diário, pego o lápis, as memórias se antecedem e com elas a vontade de escrever. Não é tão raro, pulo da cama às quatro da manhã, escrevo algumas linhas, para não esquecer, e volto à dormir. Como
já disse anteriormente. Eu me considero um ser ''macunaíma'', nasci com dez anos de atraso. Esse tempo de isolamento do contato com o mundo lá pelas bandas da Província de Itanarã (Paraguai) e Colônia Bom Dia (Brasil) não foi tempo perdido. Lá não é o fim do mundo ainda, mas é perto. Aprendi e vi coisas que me caracterizam como ser.
Eu chamo esse tempo de ''tempo de gestação''. Aos dez anos eu nasci, para esse mundo. Demorei para falar, aprendi a escrever e ler com 3 anos (assim contam meus pais e tias). Para falar era mais difícil, eu só ouvia o guarany do Paraguai e meus pais não eram muito de causos quando estavam à sós. Tinha o Baiano, esse era o saci pererê para mim. Meu irmão de coração, apesar dele ter duas vezes a minha idade. Ele vivia mentindo para minha mãe. Ela sabia. Eu não sei a origem do Baiano e nem quem eram os pais dele. Só sei que ele me dizia. ''Você é meio estranha. Parece que vive viajando. Acho que um dia você vai morar ''nos estrangeiros'' e vai conhecer a neve''. Neve? Nem sei o que que é isso!
De vez em quando o Baiano apanhava muito dos meus primos mais velhos, donos da fazenda onde morávamos. Eu chorava escondida atrás da casa e quando voltava percebia que minha também havia chorado.
Nesse tempo invertido, hoje, amanheci com vontade de escrever.
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| Sur la route Normandie / Alpes |
Hoje lembrei da viagem pelo branco, como previa o Baiano, da sensação de estar num mundo sem cor, do drama, da aventura. Considero valioso, rico, o lugar da infância. Eu percebi, naquele momento, o quanto cada lugar tem seu fascínio e como as pessoas daquele lugar expressam as emoções e sensibilidades de forma incompreensível ao insensíveis. As pessoas são seres mágicos, todos animais são mágicos. Podemos harmonizar sim.
Esses dias uma menina veio me dizer: ''Você é casada com um francês? Os franceses não conseguem expressar sentimentos''. Na hora eu não respondi, prefiro pensar primeiro. mas agora eu posso dar a resposta. Na verdade, eu penso que é ela quem não consegue captar a linguagem de transferencia da sensibilidade enviada por aquele determinado povo. Ela é que não está sendo sensível. Mas isso já é outra coisa. Agora quero lembrar do branco.
Nessas andanças pelo mundo eu fui parar em Valmorel, Haute-Savoie na França.
Eu facilmente me deixo conduzir, ainda mais nessas ocasiões, guiada por pessoas locais. Antes de chegar lá, pouco sabia sobre o lugar. Confiando nos meus guias e no fascínio pela descoberta. Como eu mesma já disse em outras ocasiões, gosto de ler sobre o lugar somente depois que o visito, assim como um dia o cara que escreveu o guia prático descobriu tudo, eu também gosto de descobrir com o meu próprio olhar e depois saber a opinião do outro.
Dia 2 de janeiro de 2010, 4 horas da manhã, saímos abaixo de neve da Normandia em direção aos Alpes. A viagem foi longa e tensa. A neve tomou conta da França formando um véu branco, tudo ficou sem cor. Um lugar velho encoberto com os cabelos brancos, dentro de um túmulo frio. A velocidade máxima do carro era de 40km/h. A atenção redobrada. Viajantes que iam e se seguiam lentamente no segundo dia de um ano novo. O percurso demorou o dia inteiro nesse ritmo lento e propício para a contemplação.
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| Valmorel |
No início da noite chegamos em Valmorel, já estava escuro, estrada estreita e cheia de curvas. Lá encontramos uma pequena estação com chalés e residências para alugar por temporada, encobertos pela neve. Não se via um ser vivo perambulando pelas ruas.
Assim que paramos, as crianças, Tainá, Thomas e Bruna desceram rapidamente do carro.
Não posso descrever. A alegria é indescritível. Mas posso tentar: saltaram na neve, descalças, riam e choravam, nadavam naquela paisagem insólita.
Eu olhei para elas, enchi meus olhos de lágrimas de alegria e num frio de (-11ºC) deixei que curtissem até onde poderiam, quando já estavam roxas de frio e molhadas pela neve, quiseram entrar. Crianças.
Entramos no Chalé que abriga várias residências. O nosso era todo decorado com coração. Não dava nem para acreditar. Acendemos a lareira e curtimos aquele momento melancólico e mágico juntos.
Pela manhã após o café-da-manhã cada um traçou o seu destino.
O Thomas foi para o Club Piou-Piou, escolinha para os pequeninos aprenderem a esquiar.
A Anne-Marie, ''ma belle-maman'', depois de deixar Thomas na escolinha de esqui, seguia seu caminho, ela não curte muito esquiar, prefere caminhar na neve pelas trilhas.
Jean-Philippe, Gaëlle, e JM desapareceram. Estavam na ânsia para esquiar depois de muito tempo.
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| Thomas, Tainá e Bruna (cousine de Buritis - RO) |
Tainá e Bruna também foram para a escolinha de esqui categoria ''Ourson'', adequado para a idade delas.
Gregoire (chegou depois, não lembro quando exatamente, mas chegou).
E eu?
Bom, eu tive que me virar. Lembrando que esquiar, para mim, foi um tanto traumático. Essa era a terceira vez que eu embarcava nessa de ir para a Montanha no inverno para esquiar (sou macaca de montanhismo, no verão e caminhando). A primeira vez que experimentei esquiar foi na estação de La Norme, janeiro de 2001. A segunda vez foi na Serre Chevalier em março 2001. Naquela época eu morava em Paris. Lembro que voltava frustrada e cheia de hematomas, cheguei a chorar nas inúmeras tentativas. Na época eu falava que não tinha tido sorte com o grupo e nem com o professor. Fiquei tão decepcionada que desisti de tentar e não ultrapassei o nível básico. Mas na verdade era eu quem não estava preparada. Como já disse sou ''macunaíma'', dez anos de atraso.
Voltei para esquiar!!!
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4 janvier 2010 (4 ans)
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Foi nessa viagem de muitas sensações e re-descoberta que eu pude mudar minha concepção e perder o medo de esquiar. Eu resolvi tentar outra vez. Fui na escola de esqui e me aconselharam uma professora, dessa vez particular. Ela tem a minha idade, se chama Ana, logo senti muita confiança nela e uma certa afinidade. Conversávamos sobre outras coisas e o esqui fluiu naturalmente, quando me dei conta, eu já estava no alto de uma montanha descendo, fluindo numa liberdade sensacionaaaaaal.
No último dia a Ana me levou num lugar especial chamado ''col de la Madeleine'', encontramos um amigo dela, cabelo longo, nativo, professor das antigas. Paramos no colo da montanha para observar o pôr-do-sol. De repente o inesperado. O sol se alinhou com o nosso corpo e projetava uma sombra que batia na neblina que estava há alguns metros de distância. O sol, eu e a sombra na neblina, alinhados e assim acontecia com os outros. Viramos para trás, para a neblina e nela vimos o arco-íris contornando a sombra de cada um. Cada um via o seu próprio arco-íris, mas não podia ver o arco-íris em volta da sombra do outro.
Só o silêncio pode expressar o que senti naquele momento...
Durou alguns longos instantes. Foi se diluindo de acordo com que o sol ia se pondo.
Foi a primeira vez que vi o pôr-do-sol virada de costas para ele.
Só de lembrar me dá um arrepio e uma vontade de chorar.
Agora sei a cor da minha aura... Ela é colorida!
(...)
(...)
A neblina por sí só, para mim, já é um fenômeno, depois da expedição Pico da Neblina (2009) minha relação com a neblina ficou mais forte. Tenho lembranças da serra, subindo e descendo lá na Fazenda Nhu Guaçú, mudamos para lá depois de uma fuga pela madrugada do Paraguay (era viver ou morrer), pela manhã se formavam nas descidas ciclos de neblina, que minha mãe chamava de serração (que nome mais lindo).
Estou aqui escrevendo e viajando para esses lugares do passado. Como é bom resgatar a memória. Ela volta com mais intensidade. Eu demorei dois anos para poder escrever o que realmente representou para mim esse acontecimento do ''col de la Madeleine''. Hoje tenho certeza que tirei muitos projetos e ideias da incubadora graças a essa lembrança.
Tenho outras, tenho uma caixinha guardada dentro da minha cabeça. As vezes elas querem sair. Meus diários foram roubados, considero-os perdidos. Se alguém os achar, que faça bom proveito.
Queria poder contar tudo isso para o Baiano. Esses dias meu pai me ligou dizendo que ele morreu, AVC. Ele estava morando em Anaurilândia-MS, deixou 6 filhos, meu pai depois que descobriu o paradeiro dele, ia visita-lo. Ele ganhava a vida como artesão, utilizava produtos reciclados. Fez uma churrasqueira com o disco de um arado e deu de presente para meu pai.
Saudades do Baiano. Ele foi meu melhor amigo na infância do mundo perdido. Apesar dele ter sido pego para ser criado pelos meus tios, os donos da fazenda, foram meus pais que deram afeto, talvez, os únicos que tenham feito isso durante sua infância.
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| L'Altispace - Valmorel |
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| Fin du voyage. Jardin des plantes - Paris |
PS: Falei com meu pai e ele vai me dar a única foto do Baiano criança. Nessa foto em PB o Baiano está montado em um cavalo preto e inclinando-o para trás, em frente da casa onde moravámos, lá no Paraguai. Não temos muitas fotos de infância, mas dessa lembro-me muito bem.