sábado, 14 de maio de 2011

sobre datilografia e religião.

Seguindo o rumo de um pensamento vago que veio junto com a pertinente lembrança que insiste em me perseguir, sou tentada a escrever sobre essa passagem da minha vida que me faz voltar de corpo e alma ao passado com som  de: ''clac, clac, clac, clac''. 
Tudo começou no início do verão, quando meu tio foi passar férias com a família no sítio dos meus avós. Eu que morava com minha família numa chácara ao lado, observava toda a movimentação dos familiares chegando para as festas de fim de ano.
Minha curiosidade em conhecer o mundo era tão grande que insisti e convenci meus pais da idéia morar com meus tios em Bela Vista. Até hoje não sei como meus pais deixaram e porque meus tios aceitaram. 
Mal sabia eu que minha permanência por lá seria de apenas três meses. Não era difícil de perceber que não daria certo. Meus tios eram Evangélicos conservadores. Meus pais muito raramente iam à Igreja. Para dizer à verdade, iam quando tinha a festa anual de São Cristovão. Minha mãe até que gostava de participar das novenas com a vizinhança na C. Bom Dia. 
Meus pais nunca me disseram para seguir essa ou aquela religião.
Bem, essa é uma parte da história.
Assim que cheguei em Bela Vista eu percebi que perto da casa dos meus tios havia um curso de datilografia. 
- ''Eles não me deixariam fazer'' - Pensei comigo.
Bela Vista é uma pequena cidade perdida na fronteira do Brasil com o Paraguai, literalmente, sem nenhum lazer para crianças e jovens. 
- ''Não sei o que vim inventar de fazer aqui''? - Eu já sofria calada.
O que me fascinou e motivou ficar mais tempo lá foi a escola de datilografia, porque a tal da Igreja para mim era pior do que tortura. Meu tio insistia na presença de todos. Eu achava chato, sem emoção verdadeira. Aquilo não me comovia e nem me tocava espiritualmente. 
Entrei na pequena escola de datilografia, perguntei o preço da mensalidade e se eles eram crentes. Estranharam minha pergunta, me informaram o preço e responderam não a minha segunda pergunta.
Com o dinheiro que meu pai mandava dava para eu pagar o curso e ainda sobrava uns trocados para tomar sorvete de vez em quando com minhas primas. Parece mentira! Mas até tomar sorvete era proibido. Eu não acreditava naquilo. Comecei a fazer oposição ao meu tio. Convenci minhas primas a mentir e a fugir comigo para tomar sorvete à 500 metros da casa delas. Foi divertido na hora!  Até minhas primas serem punidas.
Ainda bem que chegou a segunda-feira e eu tive minha primeira aula de datilografia. Me lembro que foi numa das máquinas mais antigas da escola, com a qual criei uma certa intimidade, digamos assim. Era da marca Olivetti e se não me engano da Déc. de 70. 
''asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg aasdfg asdff assdfg asdfg asdfg asdfg asdfg''
E assim foi, até descobrir todo o teclado. 
Um mês depois eu já estava escrevendo as primeiras palavras e quiseram me passar para uma máquina elétrica com tecla corretiva. Eu insisti em continuar com a máquina de escrever que eu me identificava, estava acostumada com o som das teclas, era como se fosse um piano de letras. Gostava de juntar as letras, depois as palavras. Mais para frente iria construir frases, sonhava em escrever um texto, uma poesia. Para mim isso era mágica.
Lembro-me de pedir para que nos últimos cinco minutos pudesse escrever frases livres. Eu gostava muito na época de escrever a frase do Vinicios de Moraes ''Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure" e também a frase do Renato Russo ''É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..."
O tempo passou e chegou o mês de março. 
Na véspera do meu aniversário. Liguei para meus pais de um orelhão e disse somente que estava com saudades e que gostaria de passar meu aniversário com eles. No dia seguinte eles chegaram com minhas duas irmãs e uma amiga para minha surpresa. Fiquei emocionada quando vi o fusquinha verde do meu pai.
Contei para eles que na verdade minhas malas já estavam prontas e que eu não pretendia mais ficar em Bela Vista. Eles ficaram felizes com a notícia. 
Na manhã seguinte, estrada de chão, meu pai, minha mãe e quatro  meninas espremidas no banco detrás do fusca. Eu era a mais repleta de alegria por estar fazendo o caminho de volta para casa.
Eu continuei meu curso de datilografia em Amambai e nunca mais quis saber de ir à Igreja Evangélica.

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