sexta-feira, 13 de maio de 2011

Jazz do Capão



 No inverno do ano passado, mês de junho, uma amiga me chamou para fazer uma viagem. Eu que vivo com o pé na estrada não pensei duas vezes. Preparei minha mochila, não esquecendo material de escalada, roupas para mim e para meu filho caçula. Seria nossa primeira viagem sozinhos.''Aventura, oba! me instiga a viver''. Pensei. ''A idéia de fazer determinadas coisas com determinadas pessoas também me atrai.''Pegamos o avião para Salvador. Chegamos no meio da tarde. O cheiro de acarajé vinha de longe, fomos seguindo aquele cheiro até a barraca da Baiana. Pedimos um para cada.

''Hummm. Eu estou mesmo na Bahia!'' Pensei comigo.
Eu sabia que havia uma carona para o Capão, porém, eu teria que me virar para conseguir um assento infantil para carro. Lá vou eu procurar em todos os Shoppings de Salvador. depois de muito rodar, nada encontrei. Me falaram que com a nova lei em vigor, havia esgotado o estoque. Desisti.
Agradeci a boa vontade de todos e resolvi que iria de ônibus. Eu e Thominhas.
Pegamos o ônibus que saia uma hora da manhã de Salvador. Quando acordamos estavámos chegando em Palmeiras. 
O dia estava amanhecendo. Uma luz alaranjada surge dentre as montanhas iluminando aquelas casinhas coloridas. Nas ruas só alguns gatos e cães sarnentos. 
Procurei condução para o Vale do Capão. Consegui dividir uma Rural com outros passageiros que também estavam indo para lá. Custou oito reais por pessoa. Não cobraram do Thomas. Na estrada a poeira cobria a vegetação. Os riachos estavam quase secos. 
- Faz tempo que não chove por aqui. Disse o motorista da Rural.

Chegamos no Vale do Capão, ficamos no Centro, onde tem uma Igreja, o Mercadinho Flamboyan, um pagode e as casas dos moradores, onde podemos comer refeições deliciosas. A cidade se resume nisso. Desci lá mesmo.
O palco para o Festival de Jazz do Capão estava sendo montado, dentre as atrações: Toninho Horta, Hermeto Pascoal e banda, Orkestra Rumpilezz, Coral do Capão, Grupo Garagem, Banda de Boca, Grupo Instrumental do Capão, oficinas...                        
O Thomas estava cansado da viagem. Fazia frio. Achamos a casa que alugamos e tiramos uma soneca.
No final do dia fomos para Conceição dos Gatos. Vilarejo onde mora a simpática dona França. Reservamos o almoço para o retorno da cachoeira. Uma deliciosa moqueca de jaca. Especialidade da casa.
Chegava à noite e o Jazz corria solto no Festival. O Hermeto eufórico dava pulos e gritos. Só indo lá para saber do que estou falando. É um ritual, não dá para descrever, talvez um ilustre poeta conseguisse  descrever a emoção e a vibração que rola no festival do Vale. Acordávamos pela manhã. Tomávamos um açaí, depois Cachoeira. Virou nossa rotina. Escalei somente dois dias. Mas aproveitei o Thomas. Valeu muito essa viagem. Não visitei as cachoeiras mais famosas e nem senti falta.  Caminhamos sem pressa de chegar, vivemos momentos de cumplicidade e harmonia. Pedindo carona na ida e na volta na beira da estrada para chegar até o riachinho. O Thomas foi super parceiro e caminhou bastante sem reclamar.
Nessas idas para o riachinho o Thomas me deu um susto daqueles. 
Seguiu uma sementinha de tangerina dizendo:
- Meu dente caiu. Foi nesse ato que ele perdeu o pé, deslizou e caiu cachoeira abaixo. 
Meu coração parou de bater, fiquei sem voz por um tempo e tremia temendo o pior. 
Ele sumiu cachoeira abaixo. Por razões inimagináveis, apareceu nos braços de um menino que escalava por ali. Para mim um anjo apareceu e salvou meu filho. Serei eternamente grata. 
O Thomas disse assim depois que o susto passou: 
- Mãe, eu ''quase'' fui morar ''para sempre'' no meio da mata com o Saci Pererê.
Pedi para dona França benzer o Thomas.
À noite, participamos da novena ministrada por ela e seguimos numa roda de ciranda da igrejinha de Conceição dos Gatos até a casa de uma senhorinha, amiga da dona França, uma das moradoras mais antigas do local.
- Começou o forró, grita um senhor para os que estavam chegando. ''Dê-lhe forró sô.''
Nos despedimos do Vale do Capão no pé do Morro Branco.
Chegamos em Salvador na tarde do dia quinze de junho de 2010. Ainda no ônibus começamos ouvir um barulho muito estranho. A Copa do Mundo na Africa do Sul havia começado e a gente nem havia se dado conta. O barulho estranho era das ''vuvuzelas''. Salvador estava em festa, todos de verde e amarelo. Era o primeiro jogo do Brasil contra a Coréia do Norte. O Brasil ganhou nesse dia.
Pegamos o avião de volta pra casa.
Chegamos coma bagagem cheia de histórias para contar. 
Essa foi nossa incrível viagem para a Chapada da Diamantina.
Vamos vivendo, aprendendo e crescendo com nossas andanças!



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