Paris la ville des lumières.
Cheguei para morar na França em novembro de 2000. Inverno. Ventos involuntários. Cor: cinza escuro.
- Calma! Me pedia uma voz interior. - Não durará para sempre. Consolei-me.
Eu não tinha mais lágrimas, chorava e lamentava.
Mudei para o ''18éme arrondissement'', Montmartre. Meu pensamento, meu olhar também mudou. Fui me transformando. Montmartre renova qualquer alma desiludida. Por ser um bairro bucólico, poético, cura qualquer ''malheur'' da alma. Meus vizinhos eram: cineastas, escritores, pintores... Já dá para imaginar não é? O nome da rua onde morei? ''7, Rue Cyrano de Bergerac''. Eu poderia escrever um livro contando os acontecimentos da minha rua ''minúscula'', com uma escadaria no final e seus personagens libertários. Eu fiquei maravilhada. Eu respirava arte só de morar ali. Andava olhando para o céu para ver a chuva fina caindo. Imagem que criou vida na minha memória fotográfica. Ao invés de fazer o caminho das nuvens como fazia na Colônia Bom Dia, em Montmartre, eu olhava para os rabiscos de chuva. Não é à toa que Montmartre serviu como fonte de inspiração à grandes mestres, e à tantos outros.
O Ano de 2001 foi excitante e marcante para mim. Foi o ano de lançamento do filme ''Le Fabuleux Destin D'Amelie Poulain''. Sem exageros, eu me sentia a melhor amiga da ''Amelie Poulain''. Aprendi francês com ela, repetia as falas fazendo seu discurso e o seu percurso pelo bairro. Passava dias e meses sozinha. Quando vim à passeio para o Brasil, teve gente que disse que eu parecia com a Audrey Tautou. Como dizem os franceses ''sans blague?''.
O tempo passou e fiz grandes amizades em Paris, eternas posso assim dizer, sem pensar em distancia.
Criamos um grupo de estudo, cada dia na casa de uma pessoa: nos comunicávamos em francês. Pessoas de nacionalidades diversas. Aliás a única amiga francesa que eu conquistei em Paris foi a ''Amelie Poulain''.
Preservei os amigos franceses que fiz no Brasil. De vez em quando nos encontrávamos para sair. Eles sempre sugeriam o ''Favela Chic'', restaurante-bar brasileiro. Apesar do PF ser o mais caro que já comi na minha vida, foi lá que conheci figuras como ''Seu Jorge'', ''Luís Melodia'', dentre outros.
Mas lá no meu mais profundo ínfimo eu sentia falta do cheiro do mato. Para compensar essa ausência, andava de Montmartre até o Museu do Louvre à pé. Sentia o cheiro de livros velhos, isso me confortava. Sentia saudade das trilhas, dos vaga-lumes, das raízes, dos bichos. Sentava na ''Pont des Arts'', ficava horas olhando para o Rio ''Seina'' e pensando num mergulho no Rio Formoso, porém, lá eu me sentia eu mesma. Estranho não é mesmo? Rodeada por pessoas de todos os tipos: turistas, parisienses. De vez em quando passava um brasileiro perdido. As conversas também estavam só de passagem.
Eu fazia aquele ritual, dia após dia, encontrava as mesmas pessoas, ou não. Não existia troca de telefone ou e-mail, na verdade trocávamos assuntos diversos, menos sobre a vida pessoal de cada um.
Em meados de 2001, percebi que estava mais sensível. Descobri que estava grávida. O instinto não podia ficar mais aguçado.
Em fevereiro de 2002, nasceu a Tainá, minha ''estrela do amanhecer''. Hoje me dei conta da coincidência, Paris ''ville des lumières''. Ela nasceu com os cabelos negros, olhos puxados, uma ''índia''.
Nesse dia vivi uma das melhores experiências que já tive como ser-humano e ser-mulher. Dei à luz.
Sonhei com um parto-aquático, mas na França, na época, era proibido. Acabei me consolando com um parto humanizado.
No ano de 2002 os acontecimentos fizeram um pacto. Os primeiros meses como mãe, e diga-se de passagem, mãe de primeira bagagem, foram intensos e ao mesmo tempo confusos. Cada dia uma descoberta. Foram momentos sublimes e dolorosos. Eu pensava em ''continuidade'. Um ser se formou dentro de mim e nasceu para esse mundo. Sou um pequeno universo de certa forma. Comprovei várias teorias. ''Estamos todos ligados''. ''Natureza''.
Hoje posso afirmar que viveria tudo novamente e com a mesma intensidade.
Meu olhar mudou, mas a influencia vem do passado, das vivências. Fui adquirindo maturidade e forma.
Em 2003 voltei para o Brasil trazendo comigo a Tainá. Meu instinto de mãe disse que nada melhor do que as raízes e os laços umbilicais para criar seu filho.
O que estou vivendo hoje é a continuidade de momentos vividos no passado.
A fotografia só me ajuda com a memória ilustrativa.
As lembranças, o pensamento, o sentimento mantém-se vivos no inconsciente.
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| Étretat, verão 2002 |




Que delícia de história, Sô! Amei!
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