Galhos, vem da minha infância. Para olhar para os galhos eu tinha que olhar para cima. Descobri o céu.
Relação que construí e eternizei.
Se não olhava para o céu olhava para dentro do lago e acreditava no mundo invertido.
Cheguei a fugir de casa atrás de um rebanho de ovelhas, atravessei um brejal e até hoje ninguém entendeu como foi que cheguei do outro lado do brejo sem afundar, havia poços de areia movediça.
Na Fazenda Nhu-Guaçu, localizada na Fronteira do Brasil com o Paraguai, perto da Comarca de Itamarã, depois do Rio Iguatemi, lá onde o ''Diabo não perdeu as botas'' de tão longe que fica. Existia muitas cobras: sucuri, jararaca, cascavel e podemos imaginar outras tantas. Eu seguia pela estradinha cantando minha música preferida na época ''Seriema do Mato Grosso, seu canto triste me faz lembrar, daquele tempo que eu viajava, tenho saudade do seu cantar...''.
Eu buscava o mundo do lago. Eu sonhava tanto acordada que as vezes dormia distraída debaixo de uma árvore. Sentia medo do ''Negrinho do Pastoreio'' e do ''Mão-pelada''. Mas nem isso me segurava.
Confesso que minha relação de amizade com outras crianças demorou aflorar. Eu tinha um amigo, o ''baiano'' um menino parecido com o ''Saci Pererê'' que morava no Galpão junto com os arreios dos cavalos. Meu tio Lidio pegou ele para ''criar'', assim que se fala por lá, e largou ele para morar lá na fazenda conosco. Eu sempre perguntava da mãe dele e ele dizia que não tinha, mas que a minha mãe era a sua madrinha, dizia isso com um sorriso nos lábios. Outra pessoa com quem eu gostava de brincar era o Chico, o tratorista, que eu chamava de ''Chiboca'', duas figuras importantes na construção do meu ser. O Chico era de Alagoas, dizia que tinha sete namoradas e sua cidade natal chamava Sete Lagoas. Eu nunca conheci nenhuma das suas namoradas. Ele as descrevia e pela descrição parecia ser minha mãe e minhas tias. Eu ria do Chico, ele sempre foi muito gentil e brincalhão. Sempre trazia bala-doce ''Soft'' e ''Toddy''. Eu acordava bem cedo, feliz para tomar leite direto da vaca. Naquela época não existia essa história de agrotóxicos, minha mãe me dava leite cru.
Minha mãe sempre foi gentil e serena. Pele branquinha e delicada e de poucas palavras, gostava de chorar pelos cantos da casa dizendo que não era feliz morando longe da minha avó, ouvia discos do Tim Maia e do Roberto Carlos, de vinil, fumava escondido do meu pai, depois parou de tanto que ele insistiu. Ela nunca contrariou meu pai.
Já eu, não falava muita coisa, mas observava, aprendi a ler com 4 anos de idade e a escrever não lembro acho que com 7. Morei um tempo nesse lugar tão distante. Para sair de lá só à cavalo, não havia pontes para atravessar os rios. Meu tio tinha um carro, uma Rural amarela. O caminho era longo e de difícil acesso mesmo com o carro. O movimento para sair era na madrugada, muito sereno e poeira vermelha. Eu gostava de olhar pela janela do carro e ver o degrade de cores no horizonte plano, quando tinha neblina não dava para ver nada, nem um metro adiante. As vezes volto nesse tempo nos meus sonhos e através da fotografia.
Já eu, não falava muita coisa, mas observava, aprendi a ler com 4 anos de idade e a escrever não lembro acho que com 7. Morei um tempo nesse lugar tão distante. Para sair de lá só à cavalo, não havia pontes para atravessar os rios. Meu tio tinha um carro, uma Rural amarela. O caminho era longo e de difícil acesso mesmo com o carro. O movimento para sair era na madrugada, muito sereno e poeira vermelha. Eu gostava de olhar pela janela do carro e ver o degrade de cores no horizonte plano, quando tinha neblina não dava para ver nada, nem um metro adiante. As vezes volto nesse tempo nos meus sonhos e através da fotografia.
Um dia fiquei doente, muito doente, meus pais acharam que eu não sobreviveria.
Depois de algumas semanas internada num lugar chamado Coronel Sapucaia. Minha memória voltou e hoje me lembro de fragmentos dessa passagem inusitada. Meu pai de tão feliz com a minha recuperação disse que eu podia pedir o que quisesse que ele realizaria. Virou conto de fadas.
Não hesitei duas vezes, pedi para morar ao lado da casa da minha avó Maria para felicidade da minha mãe.
A partir desse dia não voltei mais para a Fazenda Nhu-Guaçu. Meu pai negociou com meu tio a Chácara ao lado do Sitio da minha avó. Só que não havia casa, então teríamos que morar acampados debaixo de uma árvore até meu pai construir a casa. Foi assim que aconteceu. Minha mãe não fechava mais a boca de tanta felicidade. Seu sonho tinha sido realizado. Minha mãe ficou tão feliz que nove meses depois nasceu minha irmãzinha. A casa já estava pronta, meio improvisada, mas minha mãe preferia assim do que morar na fazenda do meu tio.
Perto da casa da minha vó tinha outras crianças para eu brincar. Demorei para acostumar com o fim do ano. A casa da minha avó ficava cheia de visitas. Todos queridos, minhas tias e tios com os filhos, mas eu era bicho e as vezes chegava a ser agressiva, não sei, talvez para expressar tamanho desconforto. O pior é que eles não iam embora. Ficavam as férias inteiras. Mas quando iam eu sentia muita falta ou queria ir embora com eles. O silêncio voltava e o ano demorava passar.
Hoje numa cidade como o Rio de Janeiro olhar para o céu é realmente um passa-tempo. Encontramos um horizonte de possibilidades que cruzam o nosso olhar. Sapatos flutuantes solitários ao relento, faça chuva ou faça sol, janelas para o céu, estrelas que morrem pela madrugada, noites sem fim.
Eu sei que ainda tenho muita coisa para ver e sentir. Mas meu tempo de viver aqui está terminando. Quero me despedir. Sou do mundo. Por mais que goste do Rio chegou a hora de ir embora. Para onde realmente não importa. Minha vida é como uma árvore, vários galhos e muitas possibilidades que vão brotando.
Hoje numa cidade como o Rio de Janeiro olhar para o céu é realmente um passa-tempo. Encontramos um horizonte de possibilidades que cruzam o nosso olhar. Sapatos flutuantes solitários ao relento, faça chuva ou faça sol, janelas para o céu, estrelas que morrem pela madrugada, noites sem fim.
Eu sei que ainda tenho muita coisa para ver e sentir. Mas meu tempo de viver aqui está terminando. Quero me despedir. Sou do mundo. Por mais que goste do Rio chegou a hora de ir embora. Para onde realmente não importa. Minha vida é como uma árvore, vários galhos e muitas possibilidades que vão brotando.
As vezes parece que não entendo as pessoas, não ligo não, eu não busco o entendimento nas palavras faladas, busco sim no olhar, nos gestos, nas palavras ''impensadas'' e histórias inventadas, que não precisam ser entendidas, nem traduzidas e sim sentidas. Cada qual tem seu caminho, as vezes os caminhos se cruzam.
Expressar-se é um sentimento bom e que dá enorme prazer. Assim como ouvir e entender. Na vida tudo é aprendizado.

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