| O sol e a fumaça. |
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| O sol e a fumaça. |
Eu gostaria
de fazer um convite. Venha visitar o ''meu'' Estado, o Mato Grosso do Sul.
Venha ver de perto o que, aqui, tento descrever, o período ideal é agora,
essencialmente entre os meses de maio e outubro - época de seca, de queimadas –
venha para ver a realidade que aqui se implantou. Só para exemplificar, a
umidade relativa do ar, de um tempo para cá, vem sendo comparada a do deserto,
7%.
Esse é o meu
ponto de vista, fundamentado na minha própria experiência perceptiva e pessoal.
São as minhas impressões à respeito do que representa o biocombustível ou
agrocombustível, na prática. Na minha concepção é o que vem causando maior
impacto em um lugar intangível, sendo assim, toca-me profundamente, força-me a adaptação ou senão a desocupação do espaço. Impõe a censura aos menos esclarecidos que deixam de se expressar e questionar, dá-se o
surgimento da insatisfação. Na verdade, todos dizem saber sobre os danos atuais
causados pelo biocombustível, entretanto, enxergando com os meus próprios olhos
a situação se apresenta bem pior do que eu imaginava. Arde, fere e destrói.
Imagina para
quem vive no local? As conseqüências da implantação da cana-de-açúcar, são
muitas; cito somente meros exemplos, bem básicos, como o ressecamento e a desfertilização
do solo, causando a morte; como a queima da cana deixando o ar mais seco
diminuindo a possibilidade de chuva; deixo de citar inúmeros impactos de caráter
sócio-ambiental, sócio-econômico e sócio-cultural...
Sei que pouco
adianta os meus lamentos, afinal, ninguém se sente culpado de nada... Deixo bem
claro que não vim aqui para culpar ninguém, não me interprete mal, pelo contrário,
é só um desabafo...
O que estou
apontando é que não desejo simplesmente aceitar. Proponho a reflexão coletiva,
mesmo longe fisicamente, acredito que quem me conhece um pouquinho, já
participou dessa troca interativa de amor pelas pessoas, por viagens, pela
natureza, pela vida, ou a troca interativa de repulsa e indignação. Tenho
certeza que, mesmo que rapidamente, tivemos a oportunidade de conversar sobre
progresso, ordem e crescimento econômico, assim como, sobre a minha
perplexidade diante dos impactos causados, não só para com a terra, mas também
para com os seres que dela vivem; seres esses que são indevidamente e diretamente
afetados pelas medidas econômicas, seja aqui no Brasil ou em outro canto do
mundo, geralmente, o alvo se dá de acordo com o potencial em recursos naturais.
Tudo isso me causa repulsa e ânsia de vômito.
Enfim,
permito-me dizer que estou morrendo por dentro, cada dia que passa perco minhas
forças... Me sinto impotente diante do poder. Mas, ainda alimento um fio
de esperança que se faz necessário por outras razões.
Fujo, sempre
que posso, vou para Bonito para recarregar minhas perdas. Até quando Bonito vai
agüentar? Tudo é tão frágil, nascentes e lençóis freáticos ligados
diretamente a todo o ecossistema do cerrado e do planeta que vem sendo
impactado pela decisão de parlamentares covardes que desconhecem a natureza, a ética
e a moral.
Meu coração
se põe a chorar, se despedaça de vez, cada dia que passa a dor torna-se imensurável.
O que vejo, me deixa mais preocupada ainda. Bonito compondo um cenário de aridez.
Um novo ciclo, uma nova era, as fazendas de gado viraram campos agrícolas e a
vegetação nativa está sofrendo com o progresso desenfreado.
No sul do
Mato Grosso do Sul, isso já vem se alastrando há bastante tempo. Vem com a força
de uma onda devastadora e desenfreada. Em Amambai, Naviraí e região a destruição está
bem mais avançada com a junção da agricultura de massa (monocultura) e da pecuária
de corte.
O Mato Grosso
do Sul faz parte do Cerrado brasileiro, possuindo características próprias, com
árvores baixas de troncos torcidos e recurvados, as folhas são espessas,
esparsas em meio a uma vegetação rala, rasteira de arbustos e campos limpos, as
matas são compostas de árvores pequenas e sinuosas. Contudo, durante muito
tempo, foi considerada uma área perdida para a economia do país. O que hoje,
estamos vivendo, me faz pensar em um pesadelo. O Cerrado já não é mais o mesmo,
está cada vez mais descaracterizado; a guavira, o barbatimão, o pau-santo, a gabiroba, o pequizeiro, o araçá, a sucupira,
o pau-terra, a catuaba e o indaiá. Cadê?
Plantas nativas estão dando lugar à florestas de eucaliptos, à plantações de cana-de-açúcar,
a soja, ao milho, etc. Daqui alguns anos, é bem provável, que irão dizer que
eucalipto é nativo do Mato Grosso do Sul. A lei que rege o Código Florestal, é
a lei do poder e do dinheiro!
Já está aí, época
da sede, da fome e da desigualdade social; crianças pedindo esmola;
alimentam-se na escola, quando tem aula... sem falar de drogas como o crack que chegou
tirando o sorriso e a ingenuidade da adolescência.
Uma faísca
basta, para ver o paraíso se transformar no inferno em chamas. As pessoas não
se amam mais, não se olham mais, desconfiam do diálogo e renegam um abraço.
Olho, observo
e critico, sem temer. Como aceitar que à partir das 15:00h o sol se
transforma em uma bola vermelha, quase imperceptível aos olhos dos menos
atentos?
Monstro-fumaça!
Dê uns tempos
para cá, ele, aqui no Mato Grosso do Sul, veio morar. Dizem que está em fase de
crescimento, é apenas um monstrinho. Nessas últimas décadas o bicho vem
crescendo tanto, tanto, que tá dando medo.
Minha avó
conta que esse monstro, se alimenta da ganância do homem. Ela diz que no final,
quem se dá bem é o monstro. Ele cria uma forma avermelhada e devora o seu
criador e o povo - sem nenhum dó, sem nenhuma piedade.
O grande
monstro cinzento no céu. O bicho até que é bonito ao olhar do poeta, porém, cheira mal, uma mistura de enxofre e carvão. Dizem que é o cheiro da morte... O
curioso é que os carcarás comemoram em alvoroço quando encontram a carniça de
um tamanduá atropelado no meio da estrada.
Triste, mas é
esse o cenário.
Como fomos
perder dessa forma nossa identidade Sul-Mato-Grossense?
Espero que o
povo da Amazônia não passe pelo mesmo sofrimento que nós estamos passando.
Pausa, talvez
seja o único caminho para parar e analisar quem está nos direcionando.
O inferno de
todos, dos ricos e dos pobres vem sendo amenizado com aparelhos ares-condicionados,
seja nos carros, nas casas, nas lojas, nos escritórios, nos tratores, etc. Os
parques? São artificiais, instalados em shoppings de luxo que vendem produtos ‘’made
in China’’.
Eu, e essa
minha infinita tristeza!
O jacaré me
contou um segredo, ele disse que a chuva está por vir.
Será que ele
fez uma previsão ou é óbvio e de se esperar? Por aí virão chuvas, enchentes,
tempestades, raios, trovões, tornados... o que causará lamentações e perdas
irreparáveis.
Eu sonho sim,
pois, somente assim consigo ver sentido e continuar acreditando num mundo
melhor. Penso nos meus filhos, penso nas crianças.
Confesso que
acho o mundo frustrante! Mas, não sei como, ainda vejo flores e beleza no lugar
mais caótico e obscuro.
Vejo flores
em cada ser... Como diz minha querida avó Maria ''minha filha, a fé de cada um é
o que cura o mal, não sou eu benzendo, como muitos pensam''.
Quanto mais
viajo, mais acredito em uma saída, mas do jeito que está indo, espero que não
seja só utopia.
O Brasil
sente um peso... o peso dos blocos econômicos mundiais, o peso de ser
considerado o celeiro do mundo. O peso da desigualdade e da ignorância do
povo. Povo que vem da escravidão, extermínio, dominação e manipulação.
Eu acredito
no conhecimento, na sabedoria e no modo de vida dos índios.
Como já disse
o grande Zé Ramalho ''eh, ôô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz.''
Chega, né?
Eu não estou
dizendo que sou contra o desenvolvimento, para mim, esse é o verdadeiro sentido
de um país, desenvolver-se baseando-se em fundamentos paralelos ao dinheiro e
ao poder... desenvolver-se, primeiramente, com prevenção, precaução, saúde,
educação, igualdade social e preservação das riquezas naturais, acima de tudo.
É ela que nos
mantém, a Natureza. Sem ela não existe nada. O desenvolvimento baseado no
conhecimento da mãe-natureza é a chave que todos nós buscamos...
Ser nativo não é só nascer no lugar, é mais do que isso, é uma filosofia de vida, é um estado de espírito, é viver em harmonia com os outros nativos, plantas e animais.
O conceito de
industrialização não é nosso... vem de fora... queremos tecnologia... mas queremos
ser respeitados... queremos nossos rios, nossas florestas... queremos decidir o
que é melhor para nós... queremos que o mundo aprenda a nos ouvir para que possamos
fazer a troca do conhecimento... não é assim através da imposição e dominação. Ninguém foi consultado e informado sobre os impactos que essas medidas causariam, por exemplo. Queremos dialogar antes de qualquer decisão que nos afeta diretamente.
Se o
ser-humano preservar a fauna e a flora, aos poucos, ela voltará ao seu estado
de origem, lógico que restará cicatrizes, porém um corpo se regenera... daí sim, a vida
voltará a ter mais sentido.
Vejo como
absurda a implantação de 40 usinas de cana-de-açúcar, até 2026 no Estado
do Mato Grosso do Sul. Isso é crescimento? Sinceramente, como pode alguém
pensar assim? Eu não entendo nada dessa ânsia em suprir necessidades de
consumo. O Brasil não é o celeiro do mundo, nem pode ser, aqui nós temos
reservas naturais... mas elas não nos pertencem... são recursos do organismo
terra. O corpo do outro deve ser respeitado, o corpo da terra não nos
pertence... Isso é marketing de empresas que se beneficiam com esse conceito.
Pensando
profundamente, creio que será difícil combater o plano do Governo e da ganância
humana, isso já vem sendo traçado há muito tempo... tudo já vem planejado,
baseado em dados econômicos, sem fundamento para a humanidade ... baseado na
economia do poder, sempre idealizando e tendo como referência os Estados Unidos
e outros países que já se afundaram nesse poço de merda econômica.
Eu desejo
parar tudo... aqui não chulé, larga do meu pé de rachadura, ochê!
Somos
chamados de ignorantes, de povo que não consegue discernir... que não
tem coragem em se mobilizar... Continuem pensando assim...
Quero propor
em defesa das florestas uma experiência física e sensorial. Fique nu e deixe
que estranhos arranquem os seus pêlos pubianos, cabelos, cílios, sobrancelhas,
deixe que cavem feridas, queimem seu corpo... com certeza você não irá agüentar
e entenderá o que sinto com relação à destruição da natureza.
Por isso, eu o convido, venha conhecer de perto a realidade do Mato Grosso do Sul, sofro duas vezes, pelo Brasil e pelo meu Estado... a culpa de quem é? Ainda não sei.. acho que é de cada um de nós... minha, sua, nossa... tudo o que consumimos está diretamente ligado ao consumo de combustíveis...
É isso!Eu ainda acredito no Amor.
Sol




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